Por Thiago Iacocca
Necrose
ou
Preparei uma salada para Cristina
Sinto a necrose. Impotente. Algo está sumindo. Gosto de várias mulheres, mas ela me emudece. A única que me emudece na hora que bem entender. E sorri, sempre sorri sem mostrar os dentes. Então rimos juntos. Falamos sobre tudo, brigamos e concordamos que devíamos trabalhar juntos. Costuma ser sempre igual.
Quando saí de casa, aonde deixei meus familiares, para encontrar os amigos e celebrar o Natal, só pensava em como seria beijá-la na noite de hoje. Coito indefinido. Estou completamente desmembrado. Não tenho braços, senão já a teria agarrado. Quem disse que tenho força? Num abraço teria demonstrado! Na antevéspera de natal eu quase pedi demissão, mas desisti por algum motivo que se decifrado será sinônimo de ódio.
Um tio meu sempre me dizia que temos que dar continuidade àquilo que acreditamos. Sempre não, ele deve ter me dito isso umas duas vezes, mas nunca me esqueci e provavelmente ele deve ter dito isso pra uma porção de pessoas. Andando na exposição permanente do MASP, não sinto nada ao olhar para as obras.
Flash.
É antevéspera de Natal e a editora onde eu trabalho me deu alguns exemplares de alguns livros para eu presentear amigos e parentes. Queria ser amigo de um desses caras que se travestem de Papai Noel e ficam sentados em shoppings. Pode ser que tenham um papo interessante. Não lutar por aquilo que acreditamos nos torna pessoas ruins. Não tentar fazê-la se apaixonar por mim me torna uma pessoa pior.
Caminhar na Paulista me faz relaxar. A noite se aproxima e me sinto em Nova York, um pouco pelo frio, um pouco pelo vento. Sinto realmente que pode nevar. Não conseguiria lutar por uma mulher comprometida. Não saberia o que dizer. Não, não sei o que dizer. Tenho que trabalhar no reveillon e provavelmente não a encontrarei na Costa Rica, onde passaríamos a virada de ano caso namorássemos. Fico torcendo para que aconteça um acidente de carro.
Amores comuns. A primeira vez que a vi eu não senti absolutamente nada. Na verdade a achei o oposto de mim. Duas semanas depois estávamos apaixonados. Eu nunca consegui explicar esse sentimento. Eu a amava da forma mais simples que um homem pode amar uma mulher. Modestamente passamos a viver uma relação sem brilho. Sempre tivemos uma relação estranha às outras pessoas, mas jamais fui capaz de traduzir o que existia.
Nas ruas andávamos como dois quaisquer, lado a lado, mal nos tocávamos ou falávamos um com o outro. Apenas nos beijávamos de vez em quando. Um tostão de amor.
Reticências. Apesar de eu muito usá-las em meus textos, provavelmente por não conseguir transcrever vocábulos e verbos convincentes, sempre odiei pessoas reticentes. Isso não altera o fato de que muitas vezes eu me rendi.
Somos falsos. Cada vez que pensava nela eu tinha a certeza de que não passávamos de pequenos falsários. Ladrões de bombons em uma loja de conveniências de um bairro distante. Na cama, amávamos como poucos. Na vida, vivíamos com pouco amor. Graças a alguma coisa amanhã é sexta-feira, então poderemos nos enganar juntos.
Acordo com os músculos do corpo enrijecidos. Acho que tive câimbras noturnas, pois a batata da minha perna dói muito. Tonto, levanto para preparar algo, de preferência um café.
Cris sempre investiu em sua carreira. Estudava na madrugada maneiras de ensinar. Insone eu preparava um café bem forte e pingava seis gotas de adoçante para minha garota. Sempre sonhei em ter um caso com a professora, mas tinha apenas minha aluna. Os cinco anos de diferença que eu ostento sobre ela não pesam em nossa relação.
Espero que ela entre pela porta de nosso apartamento para descobrir o que vai acontecer durante a noite. Ela está com o corpo visivelmente cansado, a bolsa praticamente escorrega do ombro e as pastas organizadas na mão esquerda, junto ao seu dorso, clamam por um apoio. “Por que você não pediu que eu a buscasse?”. Preparei uma salada para Cristina. Folhas e crótons, azeite virgem e pouco vinagre. Erva-doce, cubinhos de queijo e peito de peru. Ela deve estar faminta. “A Marina me trouxe, na verdade me deixou na Tutóia. Tô quebrada”.
Uma garota muito branca. Andávamos pela praia parecendo estrangeiros. Ela corresponde aos meus instintos, mas não quer algo sério. Sei que não quero algo sério, mas a rendição às vezes é a melhor atitude. Sempre tento adivinhá-la, mas nunca consigo. Nos beijávamos demais. Tenho certeza que mais do que qualquer outro casal no mundo.
Ela é loura, mas o cabelo não é amarelo. É dourado. Não brilha. É opaco. Muito liso e comprido. A cintura magra. Quando nos abraçamos, ela sempre deita a cabeça de lado no meu peito e assim ficamos. Levo minhas mãos sempre para essa cinturinha. Quando dormimos juntos, massageio seu dorso. Ela sempre diz que o meu é o melhor abraço do mundo.
O que mais me impressiona nela é o seu jeito. Conversando, tenho que me concentrar para prestar atenção. Fico hipnotizado. Sempre meio de lado, ela começa a dizer o que acha das coisas, meio infantil, meio casta. Sempre fico um pouco mal pelo fato de não saber lidar com isso. Ela está ali, falando comigo, mas eu só penso em beijar seu umbigo.
Minha roupa parece grudada no meu corpo. O carro sem ar-condicionado e com o retrovisor pendurado do lado direito me faz pensar em Luana, então deixo minhas idéias vociferarem por algo que eu não sei o que é. O trânsito da Gabriel Monteiro da Silva, uma congruência de automóveis que vêm de vários lugares indo em direção a alguns outros, me entristece. De onde vem a calma quando precisamos dela?
O trabalho não me edificou, acho que parou nos alicerces. Dinheiro acompanhado de putas e álcool enobrecem o homem. Circunstâncias. “Ué”, penso comigo, “glamour é para poucos”.
Música para ouvir no carro
Se lembra do futuro?
Planos, planos são.